Diplomacia da Inovação: como acordos internacionais fortalecem a inovação e o protagonismo do tecnoPARQ na China

A transformação tecnológica contemporânea vai além das fronteiras nacionais. Em um mundo marcado pela interdependência econômica e pela aceleração da inovação, países, empresas e instituições de pesquisa compreendem que a cooperação internacional em ciência, tecnologia e inovação (CT&I) é mais do que uma vantagem competitiva: é uma questão estratégica de desenvolvimento. Neste artigo, falaremos sobre a Diplomacia da Inovação e os acordos do tecnoPARQ na China.

No cenário global contemporâneo, marcado por rápidas transformações tecnológicas e dinâmicas geopolíticas em constante evolução, a inovação se consolida como um dos principais vetores de desenvolvimento econômico, social e estratégico. Mais do que um motor de crescimento, ela se tornou um ativo de poder nas relações internacionais, influenciando desde políticas públicas até decisões de segurança nacional.

É nesse contexto que a diplomacia da inovação ganha destaque, posicionando-se como elo fundamental entre os mundos da ciência, tecnologia e política internacional. Ainda que a diplomacia tecnológica seja um campo relevante — voltado sobretudo à regulação, segurança e cooperação em temas específicos como inteligência artificial ou cibersegurança —, é na diplomacia da inovação que encontramos um escopo mais amplo e estratégico. Acordos bilaterais, missões internacionais, parcerias público-privadas e redes de colaboração científica passam a ser instrumentos centrais não apenas para estimular ecossistemas de inovação, mas também para ampliar a competitividade e a projeção internacional de países.

A China representa um caso paradigmático. Em 2024, o país obteve a 11ª posição no Global Innovation Index, publicado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO, 2024), demonstrando sua consolidação como uma das principais potências globais em inovação. Segundo dados oficiais, o investimento chinês em pesquisa e desenvolvimento (P&D) atingiu cerca de 2,68% do PIB, totalizando mais de 3,6 trilhões de yuans, o equivalente a aproximadamente US$ 495 bilhões (PEOPLE’S DAILY ONLINE, 2025). Além disso, a China liderou o ranking global de patentes em 2023, com 1,64 milhão de pedidos de patente de invenção registrados, segundo dados da OMPI (WIPO, 2024).

Diante desse panorama, a pergunta que se coloca para o Brasil é: como inserir seus ecossistemas de inovação nesse movimento global de cooperação de inovação e tecnológica? A resposta passa pela diplomacia da inovação — e a recente atuação do tecnoPARQ na China é um exemplo concreto de como parques tecnológicos brasileiros podem liderar essa agenda.

O que é Diplomacia Tecnológica?

De acordo com textos da Academia Brasileira de Ciências, a diplomacia científica refere-se à prática de articulação internacional voltada para o uso e desenvolvimento de conhecimento científico que gere impacto em políticas públicas, inovação e avanços sociais (ABC, 2020; Lafer, 2020). Documentos da UNESCO destacam a importância da cooperação internacional em ciência e tecnologia para enfrentar desafios globais como ética em IA, saúde e sustentabilidade.

Em termos práticos, trata-se da aplicação da diplomacia no campo da tecnologia — seja para firmar acordos de cooperação internacional, seja para construir redes de pesquisa, inovação e desenvolvimento.

Diferença entre conceitos correlatos

  • Diplomacia científica: tem foco na cooperação entre cientistas e instituições de pesquisa, privilegiando ciência básica e intercâmbio acadêmico.
  • Diplomacia da inovação: concentra-se em negócios, startups e geração de valor econômico.
  • Diplomacia tecnológica: situa-se no ponto de convergência, conectando ciência aplicada, inovação empresarial e transferência internacional de tecnologia.

Assim, quando um parque tecnológico brasileiro firma acordos com hubs chineses, está exercendo diplomacia tecnológica — articulando ciência, mercado e política internacional em uma mesma estratégia. Trata-se de um movimento que ultrapassa a mera cooperação científica, pois envolve interesses econômicos, acesso a tecnologias emergentes e o posicionamento geopolítico do país no cenário global.

Nesse contexto, ganha força o conceito de diplomacia da inovação, que se apresenta como uma abordagem mais ampla e estratégica. Conforme descrito pelo Ministério das Relações Exteriores, a diplomacia da inovação visa à inserção internacional qualificada do Brasil, promovendo a internacionalização dos ecossistemas de inovação e estimulando parcerias com atores estrangeiros em setores estratégicos de ciência e tecnologia. Para Machado (2023), a diplomacia da inovação, tal como adotada pela chancelaria brasileira, amplia a noção de diplomacia científica ao integrar diferentes atores — governo, setor produtivo, academia e sociedade — em torno de estratégias de longo prazo voltadas ao desenvolvimento econômico e à projeção internacional do país. Anunciato e Santos (2020) destacam ainda que o termo tem ganhado crescente atenção no campo acadêmico brasileiro, embora sua institucionalização ainda esteja em construção. A atuação diplomática nesse campo revela-se, portanto, fundamental para consolidar ambientes inovadores, atrair investimentos e posicionar o Brasil como um ator relevante na economia do conhecimento.

Exemplos internacionais

Colaboração em semicondutores e tecnologias digitais avançadas por meio da Diplomacia da Inovação.

Índia – Japão

  • Os dois países firmaram um Memorando de Cooperação para o fortalecimento da cadeia de suprimentos em semicondutores, com foco em segurança tecnológica e inovação.
  • A parceria inclui transferência de conhecimento, pesquisa conjunta e incentivo à produção local de componentes críticos para a indústria de TI.
  • A JICA também apoia projetos de inovação no setor, como a cooperação entre o Instituto Indiano de Tecnologia de Hyderabad e a empresa japonesa Renesas.

Fonte: INDIA; JAPAN (2023), JICA (2024).

União Europeia–África

Parcerias estratégicas em energia limpa e transformação digital (Global Gateway)

  • A UE, por meio do programa Global Gateway, vem promovendo investimentos em infraestrutura sustentável nos países africanos.
  • As iniciativas incluem projetos de energia renovável, conectividade digital e capacitação tecnológica.
  • O programa busca acelerar a transição verde e digital no continente africano, com foco no desenvolvimento conjunto e sustentável.

Fonte: UNIÃO EUROPEIA (2024a; 2024b).

Acordos Diplomáticos de Inovação

Esses exemplos de Diplomacia da Inovação, demonstram como acordos de cooperação tecnológica internacional podem acelerar a inserção de países e regiões em setores estratégicos, impulsionando a inovação, a transferência de conhecimento e a abertura de novos mercados. Nesse contexto, iniciativas bilaterais e multilaterais fortalecem não apenas a competitividade econômica, mas também a capacidade de resposta a desafios globais, como a transição energética e a transformação digital.

O ecossistema de inovação chinês

A ascensão da China em ciência, tecnologia e inovação não é obra do acaso, mas resultado de políticas públicas de longo prazo e da articulação entre governo, universidades e setor privado.

Políticas públicas estratégicas

  • Made in China 2025: Plano nacional que estabeleceu metas para transformar a China em líder em setores estratégicos como inteligência artificial, biotecnologia, energia renovável e manufatura avançada. Saiba mais.
  • 14º Plano Quinquenal (2021–2025): Prioriza P&D, inovação em tecnologias emergentes e a criação de ambientes de inovação globais, reforçando o papel da China como hub tecnológico. Saiba mais.

Hubs de inovação

  • Pequim: destaque em deep tech, inteligência artificial e centros de pesquisa de ponta.
A Diretora do tecnoPARQ, Adriana Ferreira de Faria, assina contrato durante visita institucional à China para estreitar parcerias na área de inovação.
  • Shenzhen: epicentro de startups e hardware, berço de gigantes como Huawei, Tencent e DJI.
  • Xiamen: consolidado como polo de parques tecnológicos e intercâmbio internacional, sede da Conferência Mundial da IASP em 2025.
Delegação brasileira durante missão institucional na China, com representantes do tecnoPARQ e parceiros, em agenda voltada à inovação, tecnologia e internacionalização

Estrutura Tríplice Hélice

O modelo chinês se fundamenta na tríplice hélice:

  • Governo – formulação de políticas públicas e financiamento em larga escala;
  • Universidades – produção científica e formação de capital humano;
  • Empresas – aplicação prática e escalabilidade tecnológica.

Esse alinhamento explica o crescimento acelerado do país em rankings de inovação. De acordo com dados da National Science Foundation (NSF), a China ultrapassou os Estados Unidos em número de publicações científicas em ciência e engenharia a partir de 2020, respondendo por 27% da produção mundial em 2022, contra 14% dos EUA (NSF, 2023). Complementarmente, o UNESCO Science Report 2021 destaca que, entre 2014 e 2018, a China foi responsável por 44% do crescimento da produção científica global, reforçando sua ascensão no cenário internacional. Saiba mais.

No Brasil, iniciativas como o Parque Tecnológico de Viçosa (tecnoPARQ) também refletem esse modelo de gestão. O parque atua como elo entre universidade, governo e empresas, fomentando a inovação regional a partir da pesquisa acadêmica desenvolvida pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), do apoio institucional de políticas públicas estaduais e federais, e da participação de startups e empreendimentos de base tecnológica. Essa integração tem permitido a criação de soluções aplicáveis ao agronegócio, à biotecnologia e a outros setores estratégicos, evidenciando como o alinhamento entre ciência, políticas públicas e mercado pode impulsionar o desenvolvimento socioeconômico local e nacional.

Por que acordos internacionais importam?

A diplomacia tecnológica se traduz em acordos internacionais de cooperação, que são instrumentos capazes de gerar impactos concretos para startups, universidades e ecossistemas de inovação.

Impactos estratégicos

  • Transferência de tecnologia: acesso a soluções desenvolvidas em outros países.
  • Internacionalização de startups: inserção em novos mercados, atração de clientes e investidores globais.
  • Intercâmbio científico e de talentos: capacitação de pesquisadores e formação em áreas de fronteira.
  • Desenvolvimento de cadeias globais de valor: cooperação entre empresas de diferentes países em inovação de ponta.

Nos últimos anos, o tecnoPARQ tem dado passos concretos em direção à diplomacia da inovação. Em 2025, durante a missão internacional Anprotec na China, o parque assinou quatro acordos internacionais de cooperação com organizações como Saint-Hyacinthe Technopole (Canadá), Parque de Inovação de Buenos Aires (Argentina), Dhahran Techno Valley Holding Company (Arábia Saudita) e Hangzhou Normal University National Science Park (China) — ampliando oportunidades de cross acceleration e softlanding para startups brasileiras.

Esses acordos evidenciam que o parque local não está apenas conectado à realidade global de inovação, mas atuando como agente ativo de integração internacional, fortalecendo seu ecossistema, atraindo oportunidades externas e gerando valor para startups e pesquisadores.

Casos de sucesso globais

  • EUA e Coreia do Sul: cooperação em semicondutores e chips de última geração, reduzindo dependência da cadeia asiática e fortalecendo a segurança tecnológica.
  • Alemanha e África do Sul: parceria em energias renováveis e hidrogênio verde, com transferência de tecnologia e apoio à transição energética.
  • Singapura e Israel: colaboração em cibersegurança e inovação digital, ampliando startups e soluções globais para cidades inteligentes.
  • Canadá e Chile: acordos em mineração sustentável e tecnologias limpas, promovendo inovação em cadeias globais de valor ligadas a recursos estratégicos.

Esses exemplos demonstram como acordos de cooperação tecnológica internacional podem acelerar a inserção de países e regiões em setores estratégicos, impulsionando inovação, transferência de conhecimento e novos mercados.

A atuação do tecnoPARQ na China

O Parque Tecnológico de Viçosa (tecnoPARQ) teve papel de destaque na Missão Internacional Anprotec China 2025, que incluiu participação na 42ª Conferência Mundial da IASP, em Xiamen, e agenda estratégica em Pequim.

Destaques da missão internacional

  • Liderança da delegação brasileira: o tecnoPARQ representou o Brasil na conferência e nas agendas paralelas, atuando como voz latino-americana em debates globais de inovação.
  • Agenda em Pequim e Xiamen: foram realizadas reuniões bilaterais com gestores de parques tecnológicos e com representantes do governo chinês, discutindo cooperação em inteligência artificial, agritech e energias limpas. Leia sobre.
  • Assinatura de acordos internacionais: O tecnoPARQ firmou quatro Memorandos de Entendimento (MoU) com instituições de diferentes continentes, ampliando conexões globais e criando novas oportunidades de internacionalização e soft-landing para startups residentes.
    Parcerias estratégicas com institutos de pesquisa chineses: Durante a missão internacional, o tecnoPARQ esteve no China-BRICS Science and Innovation Incubation Park (China-SIIP), onde assinou uma Carta de Intenções de cooperação. O acordo prevê intercâmbio de startups e scale-ups, criação de programas de soft landing, suporte regulatório e promoção conjunta de iniciativas de inovação e aceleração tecnológica entre Brasil e China.

Essa atuação insere o tecnoPARQ como referência brasileira na promoção da diplomacia tecnológica e da inovação. Mais do que presença institucional, a missão representou um avanço concreto, transformando cooperação internacional em oportunidades reais para empresas, pesquisadores e para o ecossistema de inovação nacional.

Impactos para o Brasil e América Latina

A experiência recente do tecnoPARQ na China aponta impactos de médio e longo prazo para o ecossistema de inovação brasileiro:

  • Internacionalização de startups: empresas residentes e associadas terão acesso a incubadoras e aceleradoras chinesas.
  • Atração de investimentos: aproximação com fundos de venture capital e corporate ventures asiáticos.
  • Formação de talentos: programas de intercâmbio científico e de qualificação tecnológica para estudantes e pesquisadores.
  • Posicionamento estratégico: fortalecimento do Brasil como hub latino-americano de inovação, capaz de articular acordos multilaterais e atrair novos parceiros.

Para a América Latina, o protagonismo brasileiro por meio do tecnoPARQ reforça a relevância da região no mapa global da inovação.

A diplomacia da inovação é mais do que um conceito acadêmico: é uma ferramenta concreta para o desenvolvimento nacional e regional. Países que compreendem seu valor avançam mais rapidamente em setores estratégicos, posicionando-se como protagonistas na economia do conhecimento.

O caso do tecnoPARQ na China mostra que parques tecnológicos podem assumir esse papel de liderança, firmando acordos internacionais que abrem portas para startups, atraem investimentos e ampliam a presença brasileira em cadeias globais de inovação.

No futuro da CT&I, não basta inovar localmente — é preciso conectar-se globalmente. E a diplomacia tecnológica é o caminho para isso.

Diplomacia da Inovação: caminhos futuros para o tecnoPARQ e para o Brasil

A atuação recente do tecnoPARQ na China demonstra que a diplomacia da inovação não é apenas um conceito teórico, mas um instrumento prático e eficaz para a consolidação de ecossistemas de ciência, tecnologia e inovação (CT&I). Ao firmar acordos internacionais, o parque amplia a capacidade brasileira de:

  • internacionalizar startups, garantindo acesso a incubadoras e aceleradoras no exterior;
  • atrair investimentos estratégicos, conectando-se a fundos de venture capital e corporate ventures asiáticos;
  • formar talentos, por meio de intercâmbio científico e capacitação tecnológica;
  • fortalecer o posicionamento do Brasil como hub latino-americano de inovação, articulando sua inserção em cadeias globais de valor.

Para a América Latina, o protagonismo brasileiro por meio do tecnoPARQ reforça a importância de parques tecnológicos como instrumentos de inserção regional no mapa global da inovação.

Dessa forma, evidencia-se que, no futuro da CT&I, não basta inovar localmente: é preciso integrar-se globalmente, utilizando a diplomacia tecnológica como vetor de desenvolvimento científico, econômico e social.

Para aprofundar essa discussão e compreender os próximos passos do tecnoPARQ no cenário internacional, convidamos você a ler o artigo da diretora Adriana Ferreira de Faria no LinkedIn. E se quiser acompanhar de perto nossas iniciativas, cases de startups e oportunidades de cooperação, inscreva-se na newsletter do tecnoPARQ e faça parte dessa rede que conecta inovação local a impactos globais.

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